"Ora, a leveza não é a simplificação, nem o reducionismo, mas o bom voo que nos permite ver mais longe." Ítalo Calvino

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Escrevamos, pois!

"Assídua" que sou ao Blog do Kanitz (pra quem não conhece, Stephen Kanitz, um ser maravilhoso e um escritor melhor ainda), andei lendo umas dicas e conselhos dele de como se escrever um livro, não muito explicitamente. Talvez não saiba ele que essa é a minha maior frustração. Tantos projetos de vida após a fama do meu livro, que ainda nem escrevi.

Não que não tenha começado, e como comecei. Aos 12, 13 anos, tentei começar a escrever uns cinco livros sobre a vida de uma adolescente descobrindo o mundo. Só entendo agora que quem escreve livros de adolescentes são geralmente mulheres bem vividas e que muito provavelmente acham graça de suas personagens, e não sofrem no lugar delas. (E nem fazem uma auto-biografia).
Depois, aos 15 anos, mais ou menos, achei que estava muito ciente das mazelas do mundo e da nossa imensa culpa, e comecei a escrever manifestos, cartas e mesmo um livro, nos quais reclamaria do mundo injusto, da corrupção, da fome, do estupro, da violência, da pobreza, da ignorância, do meu cabelo, enfim, tudo o que deve ser mudado no mundo. O que eu ainda não sabia era que a tosquice partia de mim, que escrevia pra mim mesma e esquecia que esses enormes problemas não dependiam da minha enorme capacidade literária.
Depois, aos 17, comecei a escrever aquele que seria, com certeza, um best-seller. Inspirada por Memórias do Cárcere, de Graciliano Ramos (livro não completo que eu só li metade), pensei em encarnar um preso,supostamente injustiçado. No final ele descobriria que realmente tinha cometido o tal crime. O livro, com até então 2 capítulos, tinha até título. E haja breguice: "Era uma vez a dor...". Tenho até hoje os rascunhos aqui no computador. E como desisti do livro? Após escrever sobre a confusão mental que o personagem vivia, seus dilemas e dores, chegou a hora de colocá-lo no meio dos outros presos. Aí me veio a epifania final/fatal: O QUE eu sei sobre o sistema carcerário? Além de que as prisões vivem cheias, abusam sexualmente dos mais afeminados e que há tráfico de tudo lá pra dentro? Então dei risada sozinha da minha prepotência.

Relendo o que Kanitz insinuou sobre a construção de um livro, cheguei a uma conclusão óbvia em essência, mas muito difícil de aceitar quando se tem aspirações de ser um Machado de Assis da contemporaneidade. AS PESSOAS TÊM QUE ESCREVER SOBRE O QUE SABEM. Senão fica superficial, raso, errôneo... chato! De nada adianta muita firula se não houver conhecimento de causa. Tá certo que Chico escreveu Budapeste sem nunca ter estado lá, mas o Chico tem o plus que nós, reles mortais, não temos.
E taí minha maior frustração. Não conheço nada o suficiente. Não conheço lugares a ponto de saber minúcias de sua população, não conheço os problemas sociais do meu bairro, quiçá do meu país. Não conheço por completo a história da música popular brasileira, que tanto gosto. Daí começam as questões mais filosóficas: Será que me conheço o suficiente pra escrever sobre mim?

Já que não tenho o conhecimento e nem a criatividade para inventar esse conhecimento, me subjugo a mais um blog, onde não tem problema eu ser muito infantil/trivial. Não tem críticos nem leitores metidos a me avaliar. :D

3 comentários:

  1. "Era um vez a dor..." hhauhauha
    Adorei Zabelê!
    Adorei tb seu blog!
    Te indico algumas aulas da prof. Renata para lhe inspirar na escrita do seu livro!hahha

    Beijosss!

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  2. "Não tem críticos nem leitores metidos a me avaliar."

    quer rever essa afirmação?

    ahuahuahuhuahauha xD

    ow, tô no seu clube o/
    sempre quis escrever um livro... quando eu tinha lá meus 13, 14 anos eu escrevi UMA historinha, um conto, if you will, policial. coisa mais extensa que eu já fiz :P
    e Kanitz que dê espaço pra minha prepotência ( :P ), mas eu acho que o que mais dificulta a escrita de um livro é na verdade a necessidade de se conseguir escrever um história GRANDE e coesa, além de boa, claro - em outras palavras, manter um alto nível por mais que meia dúzia de páginas.

    mas a gente chega lá o/
    xD

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  3. Não se trata de saber sobre muitas coisas mas sim de ter a percepção suficiente pra conseguir condensar literariamente, aquelas com a qual você tem contato.

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