"Ora, a leveza não é a simplificação, nem o reducionismo, mas o bom voo que nos permite ver mais longe." Ítalo Calvino

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Memória Acinzentada

O ano é 2060. Tenho quase 70 anos e uma bronquite asmática que não me concede boas noites de sono há tempos. Ainda moro no Brasil, ainda moro em Belo Horizonte, mas já não reconheço o lugar. o que antes era verde, cinza está. E o que entendíamos por poluição hoje se tornou nosso habitat.

É verdade que desde a infância escuto falar em preservação ambiental e isso cresceu ao longo do tempo, mas apenas no discurso. As iniciativas não-governamentais, muitas até comoventes, não aplacaram a ambição de quem queria que o verde-palmeira se transformasse em verde-dinheiro. As medidas do Governo não passaram de propaganda eleitoral. De quatro em quatro anos as matas seriam salvas e as águas voltariam a ser límpidas, mas só até que as urnas fossem apuradas. Vi, durante este tempo, jovens engajados e conscientes se tornarem adultos conformados que jogam lixo pela janela do carro. Vi a Mata Atlântica terminar de desaparecer, vi a Amazônia virar um campo de golfe, em dimensões. Vi cada vez mais gente fumando, apesar dos alertas e das proibições. Até eu fumei, e ainda fumo.

Hoje em dia entendo que a preservação do meio em que moramos transcende a questão puramente paisagística. Não podemos pensar numa floresta da mesma maneira que pensamos num jardim. A beleza das cores é o último motivo para se preservar. Hoje sinto na minha saúde o que o descaso representa. Minha pele envelhecida além do esperado por raios solares não mais filtrados, meu pulmão que, com cigarro ou não, já não acha o oxigênio necessário no ar, minha boca sedenta de água pura, tão cara que já não posso pagar.

Se eu pudesse dizer à minha geração, ainda em 2010, o que aprendi nesses 50 anos, diria o que falo hoje, aos meus netos: Entendam que a conservação ambiental e a boa administração dos recursos naturais não é simples cumprimento de protocolo. A vida de vocês está nas mãos de quem abraça a natureza. A saúde de vocês não é mercadoria frente outros supostos benefícios. Preservem o seu entorno, e então vivam bem!

Abro a janela do meu apartamento, no décimo quinto andar. Estou acima da camada de poluição visível, mas perto o bastante para sentir o mal que ela me faz.

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