"Ora, a leveza não é a simplificação, nem o reducionismo, mas o bom voo que nos permite ver mais longe." Ítalo Calvino

terça-feira, 21 de junho de 2011

Chico - Bastidores - MÚSICA 1 - "Querido Diário"

Minha leitura da primeira música do novo álbum de Chico Buarque, “Chico”, com previsão de lançamento para julho de 2011. Eis “Querido Diário”, sob minha ótica:

[A minha verdade é a verdade absoluta nesse espaço. Opiniões diferentes serão muito bem-vindas, se para somar. Estejam à vontade para discordar, desde que concordem comigo! rs]


QUERIDO DIÁRIO – Chico Buarque

“Hoje topei com alguns

conhecidos meus

Me dão bom-dia [bom-dia], cheios de carinho;

dizem para eu ter muita luz

e ficar com Deus

Eles têm pena de eu viver sozinho”

Eis que Chico se apresenta como o homem solitário, que tem consciência disso, e cujos conhecidos se compadecem. A solidão, entretanto, não parece ser um problema até então. O tom que usa pra dizer que os conhecidos têm pena é quase inocente, de não entender o motivo de tal compadecimento. Outro ponto interessante é que ele se refere às pessoas que o cercam como conhecidos, jamais como amigos. Por outro lado, só se pode afirmar que eles o cumprimentam com “bom dia” e desejo de coisas boas. O afeto é claro, mas a associação com a solidão é feita pelo próprio homem. É muito claro o contraste entre a consciência da solidão e o não entendimento disso como problema.

“Hoje a cidade acordou

toda em contramão

Homens com raiva,

buzinas, sirenes, estardalhaço

De volta à casa, na rua

recolhi um cão

que, de hora em hora, me arranca um pedaço”

Um belo dia, o homem se percebe diferente. A manifestação de sua mudança está em sua própria percepção de mundo. Sua cidade, que, obviamente, não mudou de hábitos da noite pro dia, lhe parece diferente. A contramão é a maior evidência de que nada está no lugar de sempre. A construção de uma história para contar seu sentimento se torna fantástica quando ele insere a figura de um cachorro. Algo que ele acolheu, sem pedir nada, na rua. E a resposta que teve do cão foi a violência. Entretanto, quando diz que o cão lhe arranca um pedaço de tempos em tempos, fica muito claro que isso não lhe incomoda o suficiente para que o cão volte à rua. Seria antecipar demais e tentar achar o verdadeiro significado desse cachorro? Penso que não. Vindo de um Chico eternamente romântico, a imagem do amor e sua descoberta, por parte do homem, é a que mais se encaixa. O cão é a metáfora do novo amor. Ainda parece precipitado? Vejamos:

“Hoje pensei em ter religião

De alguma ovelha, talvez,

fazer sacrifício

Por uma estátua ter adoração

Amar uma mulher sem orifício”

Partindo do pressuposto de que o homem esteja de fato vivendo a experiência de amar, de se apaixonar, pensar em ter religião seria uma forma de buscar autoconhecimento, sentido pra vida e todas essas outras coisas. Ele busca um novo sentido pro existir, que é o que, convenhamos, nos passa a todos quando encontramos novos amores (sejam eles românticos ou não). Em seguida, menciona a possibilidade de fazer o sacrifício de uma ovelha. Nesse ponto, nos remete claramente ao sacrifício mais célebre. O sacrifício em sua origem, a imolação do cordeiro, também visível na figura de Cristo e sua paixão. E aí está a chave. Sacrifício, em seu sentido mais primário, significa paixão. ‘Matar’, abrir mão de algo. É o que ele pensa em fazer em função do novo sentimento que vive. Por fim, “amar uma mulher sem orifício”. Pra mim, a frase mais passível de diversas interpretações. Em uma leitura mais óbvia, pensando na anatomia feminina, uma mulher sem orifício é uma mulher que não existe. Mulher idealizada? Talvez. Mas eu aposto mais alto: uma mulher sem orifício, para ele, seria a mulher amada de forma pura. Nela, a questão sexual não seria o principal atrativo. É por fim o amor que ele descobre. Mas, continuemos:

“Hoje, afinal, conheci o amor

E era o amor, uma obscura trama

não bato nela, não bato

nem com uma flor

mas se ela chora, desejo-me em flama”

Aí está a confirmação do que eu disse lá em cima, no dilema do cão. O amor realmente é o elemento novo que muda a vida do homem. E, para ele, “uma obscura trama”. Essa trama é o sentimento que ele abrigou dentro de si, incondicionalmente, e que não faz diferença que o maltrate. Essa questão do incondicional fica mais explícita em “não bato nela, não bato / nem com uma flor”. Apesar de ‘apanhar’ a todo o tempo, não cogita revidar, rebater de forma alguma. Já usa o gênero feminino. Já está falando da mulher. Já está vivendo o amor. “Mas se ela chora, desejo-me em flama”. Outra frase complicada para análise. A mim parece que é a resposta natural de quem sofre por amor. Ao ver a mulher amada fragilizada, chorando, o prazer toma a condução do que ele sente. Aí já está um pouco mais possível ver o desejo sexual, através da genial sonoridade de “desejo-me em flama”, que, em voz alta, é audível como “desejo me inflama”. E, concluindo:

“ Hoje o inimigo veio,

veio me espreitar

Armou tocaia lá

na curva do rio

Trouxe um porrete, um porrete a "mode" me quebrar

mas eu não quebro não, porque sou macio, viu?!”

O final da música é o arremate que precisávamos pra confirmar tudo o que foi dito anteriormente. O inimigo é o amor que faz sofrer. A antítese mais comum e trivial que há e que, ainda assim, nos atinge e assusta a todos, sempre que acontece. O neologismo “mode” mostra a simplicidade da linguagem utilizada pelo homem. Mas guardemos isso pra depois. A última frase é a minha preferida na música toda. Não quebra porque é macio. E o que é ser macio, nesse caso: ser flexível, ser frouxo, ser forte e resistente? Qual é a verdadeira personalidade do homem?

Aí entra uma leitura um pouco mais ousada. O título “Querido Diário”, na primeira vez que apareceu, me remeteu à inocência de jovens que escrevem pra si mesmos evocando uma segunda pessoa que não é ninguém além de eles mesmos. Essa nuance de inocência me martelou durante todo o tempo em que ouvi a música pela primeira vez. E, realmente, faz sentido. O homem é muito solitário e não vê isso como problema. Seus conhecidos lhe parecem afetuosos, ainda que não sejam amigos próximos. Em um dia qualquer, sem qualquer grande fato, ele se apaixona. O uso da figura do cão é também muito infantil: o comum é que crianças recolham animais na rua e os acolham em casa. E, ainda que aquele cão lhe faça mal, ele é incapaz de abandoná-lo. A busca repentina por um sentido de vida, que, certamente não procurava antes, mostra um amadurecimento no momento em que conta. O amor puro que descobre é tipicamente o sentimento que vai dominá-lo. E assim acontece, quando sofre passivamente, incapaz de ferir a mulher amada. Mostrando a linguagem coloquial que usa o homem, Chico nos conta da simplicidade do mesmo. E assim é confirmada essa linha de pensamento: a descoberta do sentimento pelo homem, em meio à sua simplicidade e inocência.

Uma obra de arte, uma história com milhares de facetas. Um sentido pra cada ouvinte. Isso é Chico Buarque.

Ouçam aqui.

13 comentários:

  1. Muito bom, Tance, incrível a sua sensibilidade... Gostei da música também, quando ouvi pela primeira vez fiquei pensando nessa história da "mulher sem orifício", haha, acho que você foi no ponto certo.

    Chico falando de amor, sempre muito bom...



    (Saudade!)

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  2. muito boa a música, estou ouvindo direto... o da foto ao lado é o Vinícius de Moraes, certo?

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  3. Te achei pelo google. E gostei de sua interpretação. Parabéns!

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  4. Acho q a mulher sem orificio eh Maria. Que concebeu imaculada. Se reaciocinarmos temos uma evolucao religiosa simbolica nessa passagem. No mais, vejo a musica como um videoclipe, um dario mesmo, retratando o cotidiano de quem traz uma historia mas nao tantas conclusoes.

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  5. O título da música é Querido Diário. As estrofes não acontecem sequenciais. São pedaços do diário. Quando a gente junta tudo, vemos uma contrução de um personagem, bem interessante por sinal.

    Também por isso, a metáfora do cachorro como o novo amor não se justifica. Uma coisa não aconteceu no mesmo dia da outra, ele não está explicando na quarta estrofe o que é o cachorro. São 2 dias diferentes. A gente percebe bem que as estrofes não tem uma ligação cronológica, ambas tem imagens esparsas no tempo.

    O cachorro simboliza mais um dos elementos da solidão do eu-lírico.
    Mais uma imagem pra compor esse personagem intrigante. Entendo ele literalmente mesmo. Acho a sua comparação um pouco “fuga ao texto“, sabe?

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  6. Ok, extrapolar ou não o texto é uma questão pessoal :)

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  7. Mulher sem orifício é a imagem de uma santa, algo assim!

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  8. E você ainda duvida de qual faculdade deve fazer queridissima?
    Sugiro que venha para a Letras e converse com a professora Ana Clark. Ela estuda o Chico, vc vai se identificar demás com ela. fikdik
    Beijos!!
    Ferdi

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  9. Acho que a interpretação é muito mais simples:
    1-Quando ele fala que topou com conhecidos que lhe desejam muita luz e ficar com Deus ele quis apenas narrar um fato corriqueiro em sua vida e o que ele pensa disso: que as pessoas tem pena dele porque está sozinho. (parece-me que ele não gosta de ouvir esse tipo de coisa).
    2-Em seguida ele fala que recolheu um cão. Esta é uma tentativa de superar a solidão, mas que não dá muito certo já que o cão lhe morde o tempo todo.
    3-Quando Chico fala que pensou em ter religião, na verdade ele está ironizando uma idéia absurda pra ele, que é a de ter religião, e ao mesmo tempo mandando um recado para as pessoas que dizem para ele ficar com Deus. Amar uma mulher sem orifício é para ele uma coisa impensável, por isso ele faz piada.
    4-Quando Chico fala que hoje afinal conheceu o amor, notem que ele fala de um amor do passado: "era o amor, uma obscura trama". Só hoje ele percebeu que o amor teria sido planejado por alguém desconhecido (o destino?) que colocou uma pessoa na sua vida que ele não sabe como nem porque. Notem que ele deixa a mensagem de que ainda ama essa pessoa (pela sua história: Marieta).
    5-Na parte do inimigo fica claro que é a depressão, e que ele se sente seguro de que não sucumbirá, pois se acha muito flexível e adaptável a qualquer situação.

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  10. Falando de amor Chico interpreta o viver sozinho sem ser solitário, contrastando com que muitos conhecidos pensam dessa personagem.
    O amor puro, daquele que mesmo arrancando-lhe um pedaço, por agradecer-lhe a acolhida e deixá-lo emocionado de tanto receber carinho e gratidão.Vejamos; o cão não lhe contesta se chegares em casa bêbedo, tarde da noite a qualquer hora, recebe seu dono com a maior alegria sem cobrar-lhe nada.Aí está o amor verdadeiro.
    Na terceira estrofe fala também do amor pela sublime, por uma mulher sem que o sexo seja primordial na relação entre dois seres.
    A rima entre as duas palavras sacrifício e orifício tem um sentido de entrega total pelo amor.
    Quarta estrofe;amor de homem por uma mulher , onde há tramas , discursões, desejos, e mesmo assim ele não se irrita e ainda sente por se próprio muita paixão, aquele fogaréu do amor.
    A frase desejo-me em flama com a melodia ouvimos desejo me inflama. Que leva -nos a outra interpretação , que é a de sentir tesão quando a amada cai em prantos.
    Quinta estrofe:Este inimigo tem relação com a estrofe anterior , pois é o amor carnal ,aquele que leva a paixões ,que lá no seu mais profundo ínterior,quase que o faz se entregar, mas por ser racional, forte, não se deixou entregar pelas paixões.

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  11. Que delícia esse post. Chico tem coisas inacreditáveis.
    Genial.

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  12. Muito boa a interpretação. Tenho passado algum tempo vendo outras interpretações e vejo várias convergências com a sua interpretação. Na Segunda estrofe, quando se refere ao cão, vejo no primeiro momento o fato da cidade acordar em contramão como um cenário incomum ao cotidiano do personagem, sendo completada pelo cão um amor recente. A cidade acordar em contramão é bem comum quando estamos apaixonados, somos mais sensíveis e não compreendemos os estardalhaços do cotidiano por estarmos num "mundo rosa". O cão são as lembranças contínuas do recente amor, as lembranças de "hora em hora" da pessoa amada.

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